Há alguns anos, a nova classe média teve uma ascensão muito grande, causando uma verdadeira revolução social e melhorando o desempenho da economia brasileira. Com isso, um maior número de pessoas passou a ter acesso a patrimônios e bens que antes não conseguiam alcançar. A aquisição de veículos, como carro e moto, por exemplo, foi um desses crescimentos, bem como a violência no trânsito. Segundo dados do Mapa de Violência, pesquisa realizada com base no Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde, o número de mortos em acidentes de trânsito cresceu 38,3% entre 2002 e 2012 no Brasil. 

Nessa matéria você vai ver:

o   O que é violência no trânsito

o  Por que a violência no trânsito não assusta tanto?

o   Quais as formas e causas da violência no trânsito

o   Quais as consequências e sequelas que uma vítima pode carregar

o   Medidas preventivas e como agir caso seja uma vítima

O QUE É VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO

Quando um dos usuários da via, independentemente de ser o condutor do veículo, não age como deveria e alguém se machuca física ou psicologicamente; um condutor tem um ataque de fúria e consequentemente é agressivo; condutores e pedestres trocam xingamentos na disputa por alguma preferência; o acidente de trânsito vira briga; as atitudes imprudentes e negligentes de pedestres e ciclistas. Essas são algumas das principais definições do que pode ser considerado violência no trânsito. Toda e qualquer atitude que cause ferimento físico ou psicológico a alguém no trânsito, é considerado violência. Porém, o sentimento de impunidade é uma das piores formas de violência no trânsito, visto que as vítimas e familiares acabam tendo um sofrimento maior por terem se machucado ou pela impunidade que não ameniza as sequelas sociais.

POR QUE A VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO NÃO CHOCA TANTO?

Mortes no trânsito costumam não assustar ou alarmar tanto as pessoas como um homicídio, por exemplo. Mas se for realizada uma comparação com outras catástrofes, o número de vítimas nas vias públicas é muito maior. A enorme quantidade de acidentes por dia acabam se naturalizando e causam a sensação de anestesiamento e indiferença em relação ao sofrimento do outro. Para a educadora e especialista em Planejamento e Gestão de Trânsito Márcia Pontes, a violência no trânsito do Brasil é uma somatória de fatores composta por uma cultura voltada para transgredir.

“A falta de um conhecimento voltado para a segurança, a crença na impunidade e o fato de achar que a fiscalização não vai dar conta, fazem os brasileiros não acreditarem nas leis. Um exemplo é que aumentaram o valor das multas, principalmente para embriaguez ao volante, que é multiplicada por 10, custa R$ 2.934,70 e, que inclusive dobra em caso de reincidência, e o que mais se vê e se tem notícia é de motoristas dirigindo alcoolizados, provocando acidentes, sequelas e mortes todos os dias”, Márcia Pontes.

A maior causa de acidente e morte com criança no trânsito é a falta do uso de dispositivo de segurança adequado à idade ou o não uso do cinto de segurança na criança. No Brasil, segundo dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade de 2014, do Ministério da Saúde, seis crianças morrem por dia e 51 ficam feridas ou inválidas por imprudência do adulto condutor do veículo.

Se for realizada uma comparação entre outros tipos de violência, os casos de violência no trânsito não são tratados com tanta atenção como deveriam. Se há um caso de morte no trânsito, a pena na grande maioria das vezes é tranquila e o processo dura por anos sem movimentação. “Alguns casos conseguem ser resolvidos apenas com pagamento de fiança, o acusado responde em liberdade sem consequências e a vítima tem o mesmo preço de algumas cestas básicas ou prestação de serviços comunitários. É isso que vale a vida no trânsito? Cestas básicas?”, argumenta Márcia.

QUAIS AS FORMAS E CAUSAS DA VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO

É fato que a imprudência, a negligência, a falta de segurança de alguns veículos e até a inexperiência dos motoristas têm enorme peso em situações de morte e violência no trânsito, mas uma das principais causas e reclamações das vias e estradas no Brasil é a falta de estrutura, precariedade e má sinalização.

Discussões e brigas no trânsito podem levar a depressão, síndromes do pânico, medo de dirigir, sensação de incapacidade e sentimento de culpa. Além de muitos outros custos emocionais. “Um filho que vai crescer sem o pai, sem a mãe, porque tiveram a vida roubada em acidente é uma das piores violências provocadas pelo trânsito. Pais que ficam órfãos de seus filhos revelam outra faceta cruel da violência que hoje, no Brasil, não é reparada. A dor fica para sempre, muda a vida das pessoas, todo mundo se machuca. Perdas de membros, sequelas, paralisias, pessoas que vivem em estado vegetativo, mas também aqueles que convivem com os altos custos emocionais paralisantes. A vida de uma vítima de acidente no trânsito e de seus familiares nunca mais é a mesma e isso é muito violento”, analisa a educadora e especialista em Planejamento e Gestão de Trânsito.

A administradora Karina Gaspar é uma das diversas vítimas de violência no trânsito por uma das causas mais comuns: o álcool. Em 2005, Karina estava de carona com um amigo de moto que havia tomado remédio para dormir e em seguida consumido bebida alcoólica. No caminho, já em alta velocidade, ao passar sob uma lombada, o condutor perdeu o controle da moto e ambos bateram numa árvore. Karina teve o corpo jogado no meio da via e pessoas ao redor chamaram a ambulância.

“Quando eu acordei estava toda ensanguentada e meu supercílio rasgado”, conta. Como na época ela era menor de idade foi atendida apenas com a chegada da mãe, pois tinha plano de saúde e não queria passar pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O amigo, já desacordado, estava em estado mais grave com fratura na bacia e passou por três cirurgias seguidas de três meses de internação. Karina quebrou o nariz, fez cirurgia e teve algumas luxações pelo corpo. Ela ficou duas semanas internada.

Na saída de um aniversário, a maquiadora Marcela Cardoso, com seu namorado na época, foi levar o sogro em casa e ficou esperando até que o sogro entrasse e durante a espera um carro passou em alta velocidade, arranhando a lateral do veículo. “Saímos atrás do carro, coloquei o rosto para fora e comecei a gritar pedindo para parar e nada”, conta Marcela. O namorado conseguiu ultrapassar o carro e o fechou no meio da rua, dali saiu outra colisão. Após a batida, Marcela relata ainda que o motorista do carro desceu armado e apontando para o casal.

“Ele era um policial, mas estava de folga. Explicamos o que aconteceu e ele chamou várias viaturas, cerca de umas dez. Passamos para os policiais o ocorrido, mas o motorista disse que inventamos. Ele ainda percebeu que meu namorado havia bebido e disse que queria fazer um boletim de ocorrência e exigiu a realização de bafômetro”, Marcela Cardoso.

Como Marcela e o namorado haviam consumido bebida alcoólica, tiveram que pagar a quantia de R$400 para o policial, que disse que se recebesse o dinheiro desistiria de fazer o teste de bafômetro.  Por terem ingerido álcool e dirigido, o casal além de dar o dinheiro para a chantagem do  policial, ainda teve que gastar com o conserto do carro após o acidente.

QUAIS CONSEQUÊNCIAS E SEQUELAS UMA VÍTIMA PODE CARREGAR

Cerca de 7 mil crianças brasileiras com idade até 7 anos ficam sequeladas, anualmente, com membros amputados e têm a sua vida modificada desde muito cedo. Sequelas físicas ou neurológicas, amputações, arrancamentos de membros e, principalmente, as sequelas emocionais que desencadeiam estados de tristeza profunda, depressão, síndrome do pânico e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), são as consequências mais comuns na violência no trânsito.

O Violência Social separou algumas dicas de prevenção à violência no trânsito. Confira: medidas preventivas e como agir caso seja uma vítima

Condutas preventivas no trânsito sempre para aplicar aquilo que todo motorista já sabe:

  • Não dirigir se ingeriu álcool ou algum tipo de droga
  • Usar cinto de segurança e exigir que os passageiros do banco de trás também usem
  • Proteger as crianças na cadeirinha
  • Não ultrapassar em local proibido e ser ético no trânsito
  • Não cometer as pequenas “roubadinhas” e pequenas corrupções em via pública
  • Caso se envolva em acidentes, mantenha a calma
  • Para acidentes com danos materiais, retire os veículos da via, se possível, para não comprometer a fluidez
  • Caso seja vítima ilesa ou flagrar algum acidente, tente acalmar as pessoas e não discuta preferência, além de checar se está todo mundo bem
  • Sinalize o local para que outros motoristas não provoquem mais acidente e afaste as pessoas curiosas
  • Não mexa na vítima, chame o socorro e aguarde a chegada

“Lembre-se, para não se envolver e não ser vítima de acidentes, pratique a direção segura. No trânsito, nós somos como na vida e isso vai se refletir no modo de assumir todos os nossos papéis. Não podemos falar em trânsito humanizado se as pessoas não se humanizarem primeiro” Márcia Pontes

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Sobre o projeto
Enquanto o Estado e gestores públicos não acabam com a violência instaurada no País, o que resta ao cidadão? A proposta do portal "Violência Social" é contribuir com respostas, ser um canal de conteúdo estratégico onde a população terá informações sobre como lidar com a violência e se defender, além de conhecer melhor os seus direitos.