Vulnerável em aspectos físicos, psicológicos, cognitivos, e até mesmo financeiros, a população idosa é agredida de diferentes formas. O mais impressionante neste contexto, no entanto, é que a violência contra idosos é um crime pouco denunciado, e os principais agressores, geralmente membros da própria família, seguem na impunidade.

Em 2017, o Ministério dos Direitos Humanos brasileiro registrou mais de 33 mil casos de agressões a pessoas acima de 60 anos. O número preocupa ainda mais quando é considerado o envelhecimento da população.

violência contra idosos

De acordo com o Relatório de Justiça em Números, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), quase 29 mil processos de crimes enquadrados no Estatuto do Idoso ingressaram no Judiciário entre 2015 e 2017. Somente no ano passado, foram mais de 9 mil novas ações sobre violações a direitos de idosos.

As principais denúncias foram: abandono de idosos em hospitais; discriminação contra a pessoa idosa; apropriação ou desvio de bens, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso.

A violência contra idosos pode ser um crime difícil de ser identificado, dada a proximidade dos agressores e, na maior parte dos casos, da falta de denúncias. Para você entender melhor esse cenário, o Violência Social preparou um post completo:

> Entenda quais são os tipos de violência contra idosos e o perfil dos agressores;

> Denúncias e triste rotina no Distrito Federal;

> Os efeitos psicológicos da agressão e da violência;

> Saiba como denunciar os maus tratos a idosos.

 

Tipos de violência contra idosos

A psicóloga Rosana Cibok destaca que existem diferentes tipos de violência contra idosos, sendo os abusos manifestados de diversas maneiras, como físico, psicológico, emocional, sexual ou financeiro.

As agressões podem ser cometidas de forma não intencional ou intencional, sendo considerada uma forma de negligência.

“A maior parte das agressões são cometidas por filhos ou cônjuges. As vítimas se calam por terem medo de represálias ou até alteração do ambiente em que vivem”.

violência contra idosos

A negligência e o isolamento social também são formas de violência contra a pessoa idosa

Para ela, o perfil de quem agride uma pessoa idosa pode variar, mas tende a seguir uma mesma tendência:

“O perfil gira em torno dos filhos (homens) mais velhos, seguido por filhas e genros que, em sua maioria, vivem com a vítima e dependem financeiramente dela. Por vezes, ameaçam o idoso e o agridem com a finalidade de doação de algum bem ou antecipação de alguma herança”.

 

Casos denunciados no Distrito Federal

De janeiro a setembro deste ano, quase 5 mil pessoas foram atendidas pela Central Judicial do Idoso, um projeto pioneiro do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e da Defensoria Pública do Distrito Federal, que conta com a cooperação técnica da Polícia Civil.

Os principais atendimentos e serviços prestados foram de acolhimento, mediação, psicossocial e palestras realizadas pelos profissionais do setor.

Foram relatados à Central 748 novos casos, dos quais 209 tiveram algum tipo de violência contra idosos. O abuso mais constante é o psicológico, com 78 casos (37%), seguido pela violência financeira, com 50 casos (24%). A violência física fica em terceiro lugar, mas é também bastante expressiva, com 36 ocorrências (17,2%).

Foram registrados também situações de negligência (14,3%), abandono (7%) e um caso de autonegligência.

 

Os efeitos da violência

Seja física ou não, a violência contra idosos deixa marcas, sendo a maior parte delas de carga emocional e permanente.

Rosana Cibok explica, ainda, que as vítimas podem se sentir culpadas, com vergonha e diminuição da autoestima.

“Além de traumas físicos e neurológicos, a vítima adquire traumas psicológicos, podendo desenvolver depressão, transtorno do estresse pós traumático (TEPT) e isolamento social. Dependendo do nível da agressão, isso pode evoluir ao óbito”.

Cultura de desvalorização do idoso – Para o life coach, psicólogo e professor da FADISP, Luiz Francisco, parte da violência provém da inabilidade da família de cuidar do idoso, entender quem ele é e suas necessidades.

“A cultura ocidental desvaloriza o idoso, tanto que precisamos de um estatuto para que ele viva em boas condições e tenha seus direitos respeitados, e isso se repete também na ação familiar. Mesmo em caso de idosos saudáveis, a cultura age como alguém que não serve mais para nada, e passa a ser tratado como um peso para os familiares porque eles não sabem lidar com dificuldades cognitivas e motoras”.

 

Denuncie!

Medo da quebra do laço familiar, de chantagem emocional, represálias ou mesmo do aumento da violência são alguns dos fatores que fazem com que a violência contra idosos seja um crime pouco denunciado por eles.

Para Luiz Fernando, a relação de dependência e o vínculo afetivo são os fatores que mais dificultam a denúncia.

“Denunciar é muito difícil, principalmente no contexto de um idoso, que depende de outras pessoas. Ele precisaria de provas e deveria se movimentar para isso, mas nem sempre dispõe desses canais. Geralmente a denúncia parte de profissionais, de outros familiares ou de outras pessoas próximas que notaram a violência. O idoso pode não ter recursos físicos, psicológicos ou cognitivos para denunciar”.

violência contra idosos

Geralmente, outros familiares ou mesmo profissionais da área que contribuem para a denúncia de violência contra o idoso

Por outro lado, qualquer pessoa que testemunhar violência contra idosos, deve reportá-la às autoridades. Saiba como:

  • Por meio do canal do Ministério dos Direitos Humanos, o Disque 100;
  • Disque Denúncia: 181;
  • Polícia Militar: 190.

 

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Sobre o projeto
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